
Não precisa ser músico (que fica exposto a barulhos de alta intensidade) ou praticante de esporte aquático (que enfrenta o contato prolongado com a água e o cloro) para prevenir-se contra algum tipo de desgaste no sistema auditivo.
Mesmo porque, os especialistas alertam que permanecer pelo menos meia hora por dia em lugares muito barulhentos pode afetar, para sempre, a capacidade de ouvir. E o perigo não está só em locais fechados, mas também nas ruas, nas micaretas, shows de forró e durante o Carnaval, segundo destaca a fonoaudióloga Isabela Pereira Gomes, do Centro Auditivo Telex.
Qualquer pessoa que se sente incomodada com ruídos indesejáveis (muitos dos quais inevitáveis) pode utilizar protetores auriculares, também conhecidos como atenuadores. Segundo Isabela Gomes, ´esses aparelhos reduzem o volume excessivo, mas quem usa não deixa de ouvir o som ambiente. Eles são indicados principalmente para músicos, DJs e motociclistas´.
Modelos
Os protetores comercializados pela Telex Soluções Auditivas são feitos em acrílico e moldados de acordo com a anatomia do ouvido e as necessidades de cada pessoa. O primeiro modelo, informa a fonoaudióloga, diminui o ruído ambiente entre 15 a 25 decibéis. O dispositivo ameniza o ruído, mantendo o som da fala. Possui um fone micro para atenuar e, ao mesmo tempo, possibilitar ouvir toda a orquestra ou banda com intensidade sonora mais confortável. Eles são transparentes e contam com puxador (de nylon) opcional.
Outro modelo (confeccionado em silicone), reduz os ruídos de 10 a 15 decibéis e tem como principal característica o fato de abafar a freqüência da fala. Também existe um tipo de protetor feito especialmente para atletas ou praticantes de esportes aquáticos que desejam evitar otite e outras inflamações advindas do contato prolongado com a água e o cloro. Moldado de acordo com a anatomia do ouvido do cliente, esse tipo de protetor auricular oferece total vedação para não haver entrada de água.
Pesquisa
São inúmeros os exemplos de estudos que comprovam os danos decorrentes do contato com ruídos excessivos. Uma dessas pesquisas foi realizada pelo Royal National Institute for de Deaf (RNID), da Inglaterra. Segundo Isabela Gomes, o estudo apontou que 70% dos frequentadores de clubes noturnos, 68% das pessoas que vão a concertos/shows e 44% dos usuários de bares experimentam sintomas de danos da audição em uma noite.
O estudo contou com a participação de 1.381 pessoas com idade entre 16 e 30 anos. Foi constatado que a maioria dos entrevistados apresentou sinais claros de perda auditiva temporária e/ou tinnitus (som parecido com campainhas no ouvido) depois de serem expostos a música excessivamente alta durante um determinado período, ressalta a especialista.
Repouso auditivo
A perda de audição afeta dez por cento da população mundial. No Brasil, cerca de quinze milhões de pessoas têm deficiência auditiva e 350 mil não ouvem absolutamente nada. A estatística é alarmante. Segundo médicos e fonoaudiólogos, os que gostam de baladas devem tomar cuidado. Quando estiverem expostos a muito barulho, como nas proximidades de um trio elétrico, devem se afastar a cada duas horas para locais mais silenciosos e lá permanecer por, pelo menos, vinte minutos (após ou durante o show), como forma de evitar o risco de perda auditiva.
É relativamente fácil perceber quando sua audição pede socorro. É só ficar atento para o fato de, mesmo ao sair do ambiente, permanecer com a clara sensação de que a música continua a ressoar com a mesma intensidade. ´Já é considerado sintoma de uma possível perda caso essa sensação faça parte do cotidiano´, destaca Isabela Gomes.
A fonoaudióloga também considera fundamental alertar os pais sobre o perigo no uso dos ´inofensivos´ (até que se prove o contrário) aparelhos de reprodução musical. De fácil acesso e usados com freqüência pela garotada, esses equipamentos estão sendo empregados por um tempo cada vez maior, cabendo aos pais a tarefa de frear esse hábito e impor limites. ´As crianças estão mais familiarizadas com o mundo eletrônico, e manuseiam esses aparelhos até melhor que os adultos. Controlar o tempo de exposição ao fone de ouvido e não sucumbir à tentação de explorar toda a potência do volume são cuidados recomendados para proteger a audição´, conclui.
A opinião do especialista - Magnólia D. Bezerra *
Ruído ambiental
Começamos a ter intimidade com o som desde muito cedo - ainda no útero materno - e desenvolvemos essa percepção a medida que maturamos o nosso sistema nervoso central. No entanto, quando nos privamos dessa percepção o desenvolvimento da fala torna-se comprometido pela falta da referência sonora necessária para a reprodução dos sons. Por isso quando a pessoa nasce surda, se não fizer tratamento fonoaudiológico geralmente é considerada surda muda. Contudo, se perder a audição ao longo da vida essa pessoa poderá também ter sérias distorções na fala e problemas na comunicação. Assim, mesmo sabendo disso insistimos em abusar da nossa audição, agredindo-a muitas vezes de forma involuntária por falta de informação ou por pura imprudência, como acontece hoje na maioria dos casos.
Vivemos um verdadeiro bombardeio sonoro em todos os setores da sociedade, seja nas atividades de lazer, trabalho ou no ambiente doméstico. No cotidiano observamos uma avalanche de equipamentos eletrônicos que convidam a população cada vez mais jovem a abusos sonoros, como os brinquedos, videogame, Mp3, Mp4, Ipod, etc. No caso específico dos equipamentos que utilizam fones de ouvido (estéreo), o uso deve ser feito de forma moderada. Percebemos que estamos além do limite quando durante o uso não podemos conversar com alguém ao nosso lado, ou quando após o uso destes ouvimos zumbidos ou redução na clareza da audição.
Esses sintomas sinalizam que entramos num nível perigoso, sendo necessário diminuir o som da próxima vez que usar os fones de ouvido. As músicas prediletas dos jovens e os locais públicos onde são tocadas, cá e lá, em altos brados, estão ensurdecendo nossos jovens. Podemos afirmar que o ruído exagerado é um problema não só no Brasil, mas que acontece em todo o mundo.
O aumento do ruído ambiental também se deve ainda ao som de motores a jato, bandas de rock, casas de show, carros com grandes equipamentos de som, fogos de artifício, ruído do tráfego urbano, veículos usados em construções, buzinas, trem/metrô, sirenes da polícia e do corpo de bombeiros e aviões. Por incrível que pareça, nem a vida no campo está livre do ruído ambiental, pois a população sofre em conseqüência do ruído de tratores agrícolas, colheitadeiras, cortadores de grama, além dos eletrodomésticos (liquidificador, TV) e implementos similares aos da cidade grande.
Os pobres ouvidos humanos estão sendo martirizados a um ponto que já não conseguem suportar. Devemos lembrar que as vibrações fortes causadas pelos ruídos excessivos desgastam as células sensoriais dos ouvidos tornando-as incapazes de qualquer reação. Além do que, o processo de perda auditiva é cumulativa e irreversível, reação que muitas vezes é acompanhada de zumbido e tontura.
Podemos citar alterações que são causadas (ou desencadeadas) pela exposição ao ruído excessivo. São elas: úlceras, enxaquecas, impotência, esterilidade, doenças dos rins e do fígado, perturbações gastrointestinais, falta de resistência a doenças infecciosas, diminuição da glândula do timo, aumento da supra-renal. Também causa estresse metabólico no complexo pituitário supra-renal, fato que provoca atividade excessiva do córtex da supra-renal, vasoconstrição e aumento no número de pulsações das pupilas, entre outras reações orgânicas. Sabendo das conseqüências, cada um de nós deve evitar ao máximo a exposição dos nossos ouvidos ao ruído intolerável.
*Mestre em distúrbio da comunicação humana (UNIFESP), Profª da Unifor